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ISSO É COISA DE NEGRO!

Por muito tempo ouvi essa expressão ao longo da minha existência para retratar de forma pejorativa as ações, comportamentos, atitudes e iniciativas de representantes afro-descendentes. Algumas sem maiores intenções de ofensas, outras carregadas fortemente de um teor preconceituoso e racista.

O povo negro no Brasil resistiu bravamente a todas as formas de opressão e degradação da pessoa humana; do degredo propriamente dito da distante Mãe África ao açoite nas senzalas, às profissões e ofícios mais aviltantes no pós-escravidão, à falta de isonomia nas oportunidades, passando pela eliminação física nas batidas policiais, à moradia indigna nos mocambos, palafitas e favelas.

Tudo que nós, afro-descentes, conquistamos até então foi fruto de lutas históricas, de muito suor e sangue, e também de muitas mortes. O reconhecimento da saga e do martírio do povo negro é uma página da tenebrosa História do Brasil, que precisa ser recontada e reescrita milhões de vezes e ensinada nas escolas como disciplina obrigatória, a fim de que as atuais e futuras gerações possam viver em harmonia e promover a cultura da paz, sem pieguices, como bem nos ensina o professor Boaventura dos Santos: "graças e não apesar das nossas diferenças".

É neste contexto que devemos entender e celebrar o dia 20 de novembro - Dia da Consciência Negra - assim decretado e reconhecido nacionalmente, como a data da morte de Zumbi dos Palmares, símbolo maior da heróica resistência do povo negro no Brasil ao flagelo da escravidão e a todas as formas de opressão. Um grande grito pelo Direito à Liberdade!

Coisa de Negro, sim, seu doutor!

Coisa de Negro Cosme, nosso grande herói da Balaiada; de João Cândido, nosso almirante negro da revolta da chibata; de Maria Firmina, primeira mulher negra da literatura maranhense; de Nascimento Moraes, nosso baluarte da ecologia; de Dica, das lutas comunitárias pelo direito à liberdade de expressão; de João do Vale, o maranhense do século; de Antônio Vieira, nosso grande e eterno menestrel; de Apolônio, Anivô e Leonardo, que tantos toques de vida nos ensinaram e continuam ensinando nas suas imemoráveis lições; das Célias, Maria e Sampaio, com as suas vozes divinas; de Rosa Reis, rainha africana, a esbanjar encantamento por todos os cantos do mundo; de Dona Teté, imortalizada pelo seu Cacuriá, que atravessou o Estreito dos Mosquitos e os oceanos; do inesquecível parceiro Escrete; da Dra. Graça Reis Lopes e Sebá, irmãos dos quais tenho imenso orgulho e admiração; de Eliane Morais, conhecida com preta, nos tempos de organização revolucionária; de Jorginho Miséria e Sabará, figuras que deixaram suas impressões digitais nas militâncias culturais do Anjo da Guarda; de Magno Cruz, Dr. Luisão, Manoel dos Santos, Mundinha Araújo e tantos outros militantes do movimento negro que hoje são referência para a nossa cidadania cultural; de Mestre Felipe de Sibá, o maior do tambor-de-crioula, patrimônio cultural brasileiro; dos nossos mestres das danças populares, Profa. Waldecy Vale, Zumbi Bahia e Saci Teteléu, artistas de muitos instrumentos.

Coisa de negro, sim, seu doutor!

Coisa de Mãe Andressa, da Negra Fulô, da incansável companheira Célia, advogada militante, que tanto lutou pelos Direitos Humanos em nosso estado; de Luiz Fernando "Prego", que bordou a canção "Pérolas Negras" para o deleite dos nossos ouvidos; da Banda Guetos, de Tadeu de Obatalá, de Candinho e Paulinho Akomabu, a primeira formada por negros, que até hoje permanece firme com sua proposta no cenário musical maranhense; Coisa de Pai Euclides, do Maranhão ao Benin; de Creusamar de Pinho, que disputa a todo instante os espaços para o exercício do direito à moradia digna para as populações mais humildes e necessitadas; de Sílvio Bebém, Chocolate e do deputado, Domingos Dutra, meus aguerridos companheiros de Partido; de Manoel Rubim da Silva, por tudo que legou à Receita Federal do Brasil e está legando à literatura e à Universidade Federal do Maranhão; de Luis Carlos Guerreiro, com a sua muitas vezes incompreendida irreverência, mas sempre leal às grandes causas populares; dos companheiros do Ministério da Cultura, Adair Rocha, da Representação Regional do Rio de Janeiro, e Henry, da RR de São Paulo; do Prof. Muniz Sodré, Zulu Araújo e Nascimento Júnior, dirigentes da Fundação Biblioteca Nacional, Fundação Palmares e do Instituto Brasileiro de Museus; coisa do Grupo de Dança Abanjá e do mais que glorioso Centro de Cultura Negra, que já passou dos trinta, consolidando-se como um vivo exemplo para todo movimento negro do Maranhão; coisa das nossas seculares comunidades quilombolas espalhadas por todos os territórios de identidade que permeiam as geografias das nossas ancestralidades.

De muitos e tantos outros negros que deixei de citar, por ignorância ou esquecimento, a quem homenageio com as estrofes de duas belas parcerias que permanecem no cancioneiro e na memória do povo negro do Maranhão:

"Bandeira de Liberdade", em parceria com o saudoso irmãozinho Escrete:

"Gaiola não é prisão pra negro/prende segredos, mas não pode nos prender/que bandeira é aquela?/é Luther King, é Zumbi, Nelson Mandela".

"África, Brasil, Caribe", em parceria com cantor e compositor Beto Pereira:

"Meu país, meu continente/minha nação varonil/minha América Latina/meu pedaço de Brasil/minha tribo, minha gente/minha raça, meu amor/meu futuro, meu presente/é da cor da tua cor".

ISSO É COISA DE NEGRO!

Joãozinho Ribeiro escreve para o Jornal Pequeno às segundas-feiras.

Texto publicado no Jornal Pequeno no dia 23 de novembro de 2009

Texto de Magno Cruz


Texto escrito por Magno Cruz que está no meu novo cd.
Valeu Querido!

Texto: Consciência Negra no Brasil


Consciência Negra No Brasil


Ter Consciência negra significa compreender que somos diferentes, pois temos mais melanina na pele, cabelo pixaim, lábios carnudos e narizes achatados mais que essas diferenças não significa inferioridade que ser negro não significa defeito, significa apenas pertencer a uma raça que não é melhor e nem pior que a outra e sim igual.

Ter consciência negra significa compreender que somos tratados como subumanos para que acreditamos ser inferiores passíveis de exploração sem direitos de exigir tratamentos iguais aos dos não-negros.

Ter consciência negra significa compreender que somos discriminados duas vezes uma por que somos negros outra porque somos pobres e quando mulheres ainda mais uma vez por sermos mulheres negras sujeitas a todas as humilhações da sociedade.

Ter consciência negra significa compreender que não se trata de passar da posição de explorados para a posição de exploradores e sim de lutar juntos com os demais oprimidos para fundar uma sociedade sem explorados e nem exploradores a uma sociedade aonde temos iguais direitos e iguais deveres.

Ter consciência negra significa combater todas tentativas dos opressores em nos dividir e não somente entre nós mesmos, mas também dos demais segmentos que lutam por uma sociedade igual.

Ter consciência negra significa compreender que a luta contra o racismo não é uma luta somente dos negros e sim de toda a sociedade que se quer livre, pois não há sociedade livre onde exista racismo.

Ter consciência negra significa constatar a força de nossa cultura de nossa gente que mesmo sobre chicote fez-nos sobreviver e continuar essa luta desde as universidades onde somos poucos até os presídios onde somos muitos e todos psicologicamente massacrados.

Ter consciência negra significa compreender que para ter consciência negra não basta ser negro e até se achar bonito e sim que, além disso, sinta necessidade de lutar contra as discriminações raciais

Ter consciência negra significa compreender que nós negros construímos, praticamente sozinhos, as bases desse Brasil e hoje somos mais da metade da população, temos direitos, portanto, de exigir do segmento não negro o pagamento de parte desses débitos, já que o desrespeito moral, a humilhação a nossos antepassados jamais poderá ser reparada.

Ter consciência negra significa compreender que a organização é fundamental na luta contra o racismo e que, como a maioria de nós pertence à chamada classe baixa da população, a causa dos chamados delinqüentes, marginais e prostitutas é também a nossa causa.

Ter consciência negra significa compreender que a luta contra o racismo é longa e árdua, mas que nela devemos depositar a máxima energia possível, para que futuras gerações de negros, possam viver livres das humilhações que marcaram a vida de nossos antepassados e marcam as nossas hoje.

Ter consciência negra significa juntar a nossa forças, a força milenar da crença, nas transformações de Exu, na justiça de Xangô, na tenacidade guerreira de Ogum, Iansã, Oxossi e todos os deuses das religiões africanas, para levar a luta até a vitória total.

Ter consciência negra significa, sobretudo sentir a emoção indescritível, que vem do choque, em nosso peito, da tristeza do tanto sofrer, com o desejo férreo de alcançar a igualdade, para que se faça ao nosso Povo, à nossa Raça. AXÉ.


Nilma Bentes
 

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